Parceria tecnológica
por Ricardo Tibiu

O Na Luta da edição 35 da MusicAll traz a cantora, compositora e produtora paulistana Olivia. Depois de quatro álbuns ela se juntou (virtualmente) ao guitarrista Frank Krischman, piauiense radicado no Texas (EUA), e desse encontro nasceu “Full Bloom”. Aqui ela nos fala sobre suas influências, sua passagem pela Trama, música independente e conta um pouco mais desta “parceria tecnológica” com Frank. Confira!

O que despertou sua vontade em se envolver com música?
Desde a minha primeira lembrança de infância a música já estava presente. Me lembro que os brinquedos que me chamavam a atenção eram os musicais, que produziam som. Minha lembrança mais remota é com três ou quatro anos, “tocando piano” na mesa da sala. Com cinco comecei a aprender leitura musical e flauta doce.

Quais são suas principais influências?
Minha formação é de piano e canto eruditos, e acredito que todo o tipo de música tenha me influenciado. Bach, Beethoven, Chopin, Stravinsky, Satie, Villa-Lobos, Frank Zappa, Led Zeppelin, Deep Purple, Sarah Vaughan, Koko Taylor, Etta James, Ella Fitzgerald, Elvis Presley, Havi Shankar, Hermeto Paschoal e muitos outros. Sempre ouvi bastante música árabe, lounge, étnica, bossa, brasileira etc.
 
Você além de ser cantora e compositora, é produtora. Quais foram seus últimos trabalhos nesta área?
Dos meus cinco CDs, fiz a co-produção do primeiro e produzi os outros quatro. Recentemente produzi o CD “Cenas”, da banda pop-rock Meia Hora Depois, co-produzi “Estranhos Desertos”, do compositor José Luiz Marmou, e no momento estou produzindo dois CDs de cantores.

Além de seu site ser bem caprichado, “Full Bloom” foi tomando forma através da troca de arquivos de áudio entre você e Frank Krischman (que está no Texas). Qual você acha que é a importância da internet hoje para quem trabalha com música?
Acredito que um artista produz um resultado daquilo que consegue absorver e “digerir”. A internet hoje é imprescindível para quem trabalha com música, não só pelo livre acesso para conhecer e descobrir novos sons (longe do que a mídia impõe), mas pelas facilidades que ela proporciona. Trocar idéias com outros músicos, em qualquer lugar do mundo, além de ser ótimo para aumentar as referências nos mantém inconscientemente cientes de que somos filhos de uma época aonde as vertentes musicais se fundem, ininterruptas, sem descanso, e nosso paladar deve ser cada vez mais variado para que possamos degustar um pouco de tudo. Se, como eu, você somar a internet ao fato de ser um artista independente, ainda ganha praticidade e autonomia. O contato direto que mantemos com fãs e apreciadores, a rapidez de publicar as novas músicas e clipes, é maravilhoso poder manter o cronograma de um trabalho obedecendo apenas à sua necessidade! O site é uma ferramenta que equivale a, pelo menos, dois “assistentes” de trabalho, para divulgação de fotos, releases, agenda de shows e venda de CDs.

Aliás, de onde veio a idéia de “dividir” um disco com o Frank Krischman?
O Frank está nos EUA há 15 anos. Antes disso morou em São Paulo e tinha uma banda de heavy metal, a Avalon. Nascido no Piauí, sempre tocou violão e guitarra, e além do rock pesado tinha também a música brasileira e regional por influência. Sempre mantivemos contato via cartas e e-mail, e no primeiro trimestre desse ano eu estava trabalhando na pré-produção de meu novo CD (autoral como os dois primeiros) e ele tinha acabado de produzir um CD-demo com canções de sua autoria. Então ele me disse que gostaria que eu cantasse umas duas ou três. Pedi que ele me mandasse as músicas e quando ouvi pela primeira vez me apaixonei por elas. Logo me veio na cabeça um CD e comecei a pensar na produção, na sonoridade, foi tudo muito rápido. Por duas semanas trocamos e-mails com as músicas, que logo já eram 10, ele gravando os instrumentos lá, eu gravando a voz aqui. Quando terminamos esse processo ele me mandou todos os áudios gravados em DVD. Aí eu chamei o Georges Grenier para gravar as baterias, gravei algumas percussões, fizemos toda a edição do trabalho. Convidei o Luiz Dutra para um violino. Nos arranjos, procurei uma sonoridade limpa, acústica, para que em nenhum momento a distância física entre mim e o Frank se refletisse no som do CD.

Como você definiria a sonoridade do CD “Full Bloom” e por que a escolha por cantar em inglês?
“Full Bloom” tem uma cara “setentista”, nos arranjos e na sonoridade, crua e acústica, que aproxima o ouvinte dos músicos e dos instrumentos. O estilo musical é folk rock, e é um CD que fala de amor, de vida, de dor e saudade, sentimentos comuns a todas as pessoas. Eu acredito numa linguagem musical que toca as pessoas e seus sentimentos, e a sonoridade da língua cantada contribui para essa linguagem musical como um instrumento, seja qual língua for. 

Você já teve um álbum lançado pela Trama, que apesar de ser uma gravadora independente tem uma estrutura bem maior que a maioria das demais do segmento. Como foi deixar o cast deles e partir para a “real” independência?
Na minha opinião o termo “gravadora independente” é um pouco contraditório. O artista é que pode ser ou não independente, a gravadora é uma gravadora. Quando entrei para a Trama, em 1998, percebi uma vontade muito grande em deixar o artista mais livre e próximo do seu trabalho. Nesse sentido foi muito bom, pois meu primeiro CD saiu exatamente do jeito que eu queria, produzido por mim e por alguém que sugeri. Essa já é uma grande diferença em relação a outras gravadoras. Toda a outra parte de estrutura de divulgação, cronogramas, agenda, marketing, me deixou muito restrita e dependente, e foi por isso que resolvi sair.

Para você, o que é viver de música no Brasil?
Viver de música no Brasil ainda é precisar lutar muito para trabalhar e manter uma carreira. Rádio e televisão ainda reservam pouquíssimo espaço para artistas independentes, e somente graças à internet podemos chegar aos ouvidos das pessoas, porque os espaços para shows se interessam muito por covers e dão pouquíssimo espaço para música própria. Estamos num momento mundial de transição do fim do CD para dar lugar apenas às vendas digitais, que no Brasil ainda representam um número muito pequeno e insignificante. Resumindo, ainda é uma cena conturbada aonde a indicação fala mais alto que o talento. Mas isso não impede que a cada dia nasçam novas e grandes estrelas, de brilho intenso, porque o Brasil foi adubado com culturas diversas, que proporcionaram e proporcionam aos seus músicos a criatividade e a originalidade.

Para encerrar, que frase você colocaria no lugar do “Ordem e Progresso” na bandeira do nosso país?
“Amor e vida”.

Contato:
contato@olivia.com.br

Links relacionados:
www.olivia.com.br
www.myspace.com/oliviacantora
www.myspace.com/frankkrischman

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