O exorcismo que deu certo
por Ricardo Tibiu

Formado há sete anos em São Paulo (SP), o Ludovic costuma roubar a cena onde passa – seja em shows da banda frente a seus admiradores ou em festivais diante de quem não os conhecia. No ano passado eles lançaram “Idioma Morto” (Travolta Discos), seu segundo álbum. Nele (ver texto na edição 33), Jair Naves (voz), Fábio Sant´anna (baixo), Júlio Santos (bateria) e os guitarristas Eduardo Praça e Ezekiel Underwood mostram uma sonoridade intensa e visceral. Aqui Jair nos conta um pouco de onde vieram as influências do disco, da energia nos shows, a relação da internet com o cenário independente, seus próximos planos e “Poço de Hombridade” – o exorcismo que deu certo.

É comum classificarem o Ludovic com uma banda de post-punk. Qual você acha que seria a definição mais próxima para o som de vocês?
Não sei, para mim é realmente difícil definir o que nós fazemos. Eu costumo dizer que quem ouve uma determinada música está em condições muito melhores de descrevê-la do que quem a toca, então seguindo esse raciocínio eu acho que nós somos as pessoas menos indicadas do mundo para tentar classificar o Ludovic em um determinado segmento. Além disso, eu acho que dizer que nós somos uma banda “pós-punk” é meio limitador e não abrange tudo o que nós fazemos. Enfim, é complicado, eu realmente não sei muito bem o que dizer sobre isso, desculpe (risos).

O que vocês estavam escutado, lendo ou vendo que possa ter influenciado na sonoridade de “Idioma Morto”?
Na época em que as músicas foram compostas eu estava muito mais ligado a cinema do que a qualquer outra coisa, até por isso que eu acho que muitas das letras têm tanto apelo visual. Não seria de todo errado citar Wim Wenders, Jonathan Caouette, Federico Fellini e Luiz Sérgio Person entre as influências desse disco, tanto no que diz respeito às letras quanto à atmosfera do álbum. Musicalmente, dá para mencionar o Sonic Youth da fase “EVOL” e “Sister”, além de Maysa, Leonard Cohen, Vzyadoq Moe e de algumas coisas do Spacemen 3.

Vocês sempre citam os americanos do Mission Of Burma como uma grande influência, como foi tocar com eles no Campari Rock 2006?
Foi ótimo, a improvável realização de um sonho de adolescente. Eu nunca sequer imaginei que teria a oportunidade de ver um show deles, quanto mais tocar com eles. E eles foram extremamente pacientes e educados conosco, eu passei um bom tempo conversando com o Roger Miller sobre afinações de guitarra, hip hop e besteiras do tipo, enfim, todos eles agüentaram a nossa tietagem com a maior boa vontade do mundo. Sem dúvida nenhuma, foi um dos pontos altos da nossa trajetória até aqui.

De onde vem a energia que você coloca para fora nos shows?
Do conteúdo das letras e da minha timidez, eu acho. Nem sempre é muito fácil subir num palco e cantar todas aquelas coisas. De vez em quando a coisa desanda e ganha uma intensidade que acaba saindo do nosso controle.

Em “Poço de Hombridade” você narra um sonho bem perturbador. Ele é real? Desde que você gravou a música ele voltou a te atormentar?
Sim, é real, exatamente como descrito na música. Já procurei em livros de interpretação de sonhos algum possível significado, dizem que é mais comum entre pessoas que tiveram suas vidas marcadas pela perda de familiares ou amigos muito próximos. De qualquer maneira, por incrível que pareça, eu não voltei a ter esse pesadelo desde que a música foi gravada. Felizmente.

Aliás, suas letras parecem verdadeiros desabafos pessoais. Alguém já te abordou em algum show dizendo ter experiências parecidas ou relatou que determinada música “aconteceu” com ela?
Isso é bem comum, na verdade eu acho que essa identificação é o que faz a maioria das pessoas se aproximarem da banda. Basta notar como o público canta as músicas nos shows, dá para notar que aquilo tem um valor muito grande para as pessoas que nos acompanham.

O que o cenário independente atual tem de melhor e pior?
Bom, vou tentar falar resumidamente, porque esse assunto poderia render uma discussão bem prolongada. A melhor coisa que ele oferece atualmente são realmente as bandas e discos em si. Francamente, não me lembro de uma safra tão diversificada e rica quanto a atual, poucas vezes os fãs da música dita “underground” estiveram tão bem servidos. Além disso, creio que o número de pessoas envolvidas está aumentando consideravelmente e hoje uma banda de pequeno porte já consegue uma projeção de mídia considerável; porque não só há mais fanzines, sites e jornalistas empenhados em divulgar o que está sendo feito fora das grandes gravadoras, mas mesmo grandes veículos de comunicação estão abrindo espaço para artistas independentes, o que é um ótimo sinal. Outro ponto a se destacar são os festivais, que estão se multiplicando por todo o país e são a melhor oportunidade para uma banda desconhecida mostrar o seu trabalho.
Com relação a estrutura, a situação não é das mais animadoras, infelizmente. A maioria das casas de shows conta com equipamentos de qualidade sofrível, ainda não há um circuito de shows solidificado e continua sendo difícil realizar turnês e apresentações em lugares afastados do grande centro. Além disso, graças à internet a venda de discos caiu muito, todo o mercado fonográfico está tendo que se adaptar a essa nova realidade e com os selos independentes não é diferente. E o público pode ser um problema bem grande de vez em quando, especialmente por certo comodismo que caracteriza essa geração atual, que quer que tudo caia do céu, que as coisas venham mastigadas etc. Chegou num ponto em que nós já ouvimos um fã da banda dizer que “é um desrespeito um artista cobrar pelo seu disco”. Para quem cresceu na época das fitas demo, troca de cartas com bandas distantes e fanzines xerocados, não é fácil lidar com um raciocínio desse tipo.

Mas vocês colocaram o primeiro CD, “Servil” (2004) inteiro para streaming no TramaVirtual...
Como eu vinha dizendo, a internet é uma dádiva e uma maldição para toda a indústria do entretenimento. Ela realmente ajuda muito na divulgação, para os artistas independentes em especial é uma ferramenta poderosíssima, e eu sei que o fato de termos fãs espalhados por todo o Brasil e até fora do país se deve unicamente à rede mundial de computadores. Entretanto, dificultou muito as vendas de discos e fez com que o formato de álbum, disco ou o que quer que seja fosse transformado em um mero cartão de visitas. De qualquer maneira, é algo irreversível, quem quiser sobreviver nesse meio terá de se adaptar a essa realidade.

Uma coisa me chamou a atenção na ficha técnica do CD, ele foi produzido por vocês e Tereza Miguel. Quem é ela e quais outras bandas ela produziu? Pergunto isso porque não lembro de ver algo nacional produzido por uma mulher.
Nós a conhecemos muito por acaso, ela foi engenheira de som em praticamente todas as gravações do Ludovic, desde o primeiro EP até o “Idioma Morto”, e hoje é uma grande amiga. Posso estar enganado, mas creio que ela nunca gravou outra banda de rock, pelo menos sei que ela não costuma trabalhar com bandas dessa vertente. É justamente por isso que eu gosto de gravar com ela, porque além de não possuir os vícios que os produtores brasileiros de rock têm, a visão de alguém que não está habituado com esse tipo de música é muito enriquecedora, faz com que a gente olhe para a coisa de uma maneira diferente.


Alguém na banda tem algum projeto paralelo ao Ludovic?

O Eduardo e o Fábio tocam no Bonnie Situation e o Ezekiel toca guitarra e canta no Shed.

Quais são os próximos planos da banda?
Temos um clipe em fase de finalização, por enquanto essa é a nossa prioridade. Além disso, devemos logo fazer uma pausa nos shows para começar a trabalhar em idéias e músicas para o próximo disco, que pretendemos lançar até o fim de 2008.

Contatos:
www.ludovic.com.br
www.myspace.com/travoltadiscos

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