Desbravando as fronteiras do tal do rap
por Ricardo Tibiu
publicada originalmente no Dizputa Zine #2

Diretamente de São João de Meriti, Rio de Janeiro, chega um MC mandando rimas positivas, batidas fortes e batuques com raízes fincadas na música brasileira. João Xavi é o nome dele e em dois anos na ativa já lançou dois belos EPs (“Dias De Luta, Noites De Amor” e “Alta Fidelidade”) disponibilizados na internet. Como João mesmo disse no bate-papo, ele e o duo de produtores BeatBass High Tech estão desbravando as fronteiras do tal do rap - e fazendo isso muito bem! Uma boa notícia para os paulistanos é que ele está chegando na capital paulista no começo de maio para três apresentações: uma no CEU Casa Blanca (dia 01), uma no projeto Zoeira Hip Hop (03) e outra na tradicional Verdurada (04) - para detalhes acesse a Agenda, enquanto isso boa leitura!

Você começou a cantar rap em 2006 e no mesmo ano gravou o EP “Dias De Luta, Noites De Amor”, você foi rápido, não?
Verdade, mas isso é uma parada que envolve várias demandas. Primeiro é a vontade de botar as idéias pra fora mesmo, que é o que leva qualquer maluco a pegar um mic, subir no palco e cantar o que escreveu. Outro lance, que não deixa de ser uma herança das minhas experiências musicais passadas, é ter uma demo pra quem curtir o show poder levar um pouco da sua música pra casa. Aquela famosa banquinha de CDs e camisetas, comum no rock, praticamente não existe no rap. Gravar o EP, que não deixa de ser uma demo, foi a tentativa de materializar o som e poder oferecer de mão em mão às pessoas. 

Antes disso você já havia tido alguma experiência na música?
Minha experiência musical é tortuosa e curiosa. A primeira vez que mexi com música foi na condição de DJ, tocando em festas aqui por São João. O som predominante era o bom e velho funk carioca, mas na época (meados dos anos 90) eu já ouvia o que aparecia de rap brasileiro, Racionais, Thaíde e DJ Hum, Gog... Mais pra frente, via Rage Against The Machine, Confronto (uma banda foda daqui de São João) e o skate, me aproximei do hardcore. Tive duas bandas meio naquela onda “rap-core”, eu compunha e cantava. Parei porque era um processo complicado, lidar com várias cabeças, várias visões do que é fazer música. Nesse tempo todo eu continuei ouvindo rap. Estudei cinema na Central Única das Favelas (CUFA) e conversava de rap com uma rapaziada do hardcore. Um dia o Raphael Garcez (que ao lado do Pablo Duca forma o BeatBass High Tech) me falou que tava produzindo umas bases de rap, pouco tempo depois a gente gravou a primeira música, curtirmos o resultado e não paramos mais! 

No ano passado saiu o EP “Alta Fidelidade”, por que ele leva esse nome e qual o motivo de todos seus lançamentos serem disponibilizados para download gratuito?
Muita gente acabou relacionando o nome do EP com o filme do John Cusack, o que eles têm em comum é a referência ao selo que vinha colado nos antigos vinis: “Alta fidelidade”, uma indicação da qualidade sonora/técnica do play. O nome nasceu dessa referência, a foto da capa sou eu com um disco de vinil, e também é uma declaração de amor pela música. Acabei botando tudo na internet porque a pegada é essa mesmo, facilitar o acesso. Faço som pra quem quiser ouvir, não rola mais ignorar que as pessoas vão trocar arquivos e tudo mais. Se isso vai acontecer, quero ser eu o maior incentivador, até porque é assim que neguinho vai ouvir o som e possivelmente curtir. 

O Radiohead também colocou o CD novo deles, “In Rainbows”, para download, mas deixando o internauta livre para pagar a quantia que quiser. O que você achou dessa atitude?
É aquilo, estamos vivendo num mundo onde aquelas velhas estruturas da indústria já não existem mais... Aí neguinho não sabe muito bem o que fazer e vai buscando alternativas como essa. O que tem de mais legal nessa atitude é a postura de encarar a questão e propor uma possibilidade nova. Típica atitude que a gente pode esperar do Radiohead, banda inventiva, que eu acho foda! Recomendo pra geral, principalmente os discos “The Bends” e “Ok Computer”.  

O rap muitas vezes é marcado por letras rudes, críticas e refletindo o dia-a-dia da periferia. Suas rimas são mais “light”, eu diria até que com temas positivos. A que se deve isso?
Acho que antes de tudo é a vontade de fazer uma leitura particular da forma como vejo o mundo. Desde 1994, quando catei o vinil de “Raio-X do Brasil”, eu piro em tudo que o Racionais MCs fez e lançou. Mas é aquilo, eu não sou o Mano Brown. Apesar de me emocionar com o que ele fala e achar que é um discurso forte e necessário, eu não podia simplesmente seguir essa fórmula e pronto. Nasci e cresci em São João de Meriti, uma cidade fudida da Baixada Fluminense, periferia cruel igual tem por todo o Brasil. Convivi com todas essas paradas que as letras de rap normalmente falam: drogas ilícitas, alcoolismo, violência, desemprego, falta de estrutura... Graças aos amigos que conheci na rua consegui ler, ouvir e assistir coisas que me trouxeram novas perspectivas sobre essa situação que me rodeia até hoje. Não acho que as letras sejam “light”, são só tentativas de encontrar novas reflexões pra antigos problemas. Não ignoro nada que acontece por aqui, só aposto numa postura diferente. Assim como acho que a polícia erra tentando acabar com a violência subindo morro e metendo bala em geral, acho que a periferia e as favelas também precisam rever suas ações e encontrar novos caminhos para resolver suas questões. Na real, todas as músicas acabam girando em torno de uma única idéia, é como se eu quisesse sempre dizer: “sangue bom, tome as rédeas da sua própria vida!”. Acima de tudo, é nisso que eu acredito. 

Desculpe minha ignorância, mas de quem é a voz e o que significa aquele sample no final de “O Balão e as Cinzas”?
Ignorância nenhuma, mas você vai me obrigar a revelar um pequeno segredo. Isso é um áudio que captamos do documentário “Saravah”, do Pierre Barouh. Esse francês veio ao Rio nos anos 60 a fim de mergulhar no samba carioca. A voz é do Paulinho da Viola, ainda novão, falando da dinâmica da escola de samba, explicando como aquele era um espetáculo que era feito pelo povo para o próprio povo. A fala do Paulinho, um cara que admiro, e essa imagem do carnaval encaixam perfeitamente com a idéia da música que é essa coisa de ascensão e queda, felicidade parcial e tudo acabar na quarta-feira de cinzas. Quase não falo disso, mas já que você perguntou dela, fiz essa letra em homenagem a um amigo que foi assassinado. Eu voltei de um festival de cinema em Fortaleza, onde um filme meu tinha sido premiado e a primeira notícia que recebi foi a morte dele. Foi foda, eu todo feliz com o prêmio, achando que tava mudando o mundo com o filme e quando volto pra casa a realidade tá aqui me esperando dessa forma. 

Dá pra sentir que você tem muito mais referências da música brasileira que internacional. Como as batidas brasileiras foram parar no seu som?
Logo no primeiro som que fizemos, um que a gente nem toca mais, começamos a mexer com os afro-sambas do Baden Powell. O resultado foi tão interessante que decidimos trabalhar em cima dessa estética. Isso também aconteceu de uma forma muito natural, sabíamos que a nossa onda era fazer um som diferente e o pessoal da Beatbass High Tech também tinha essa referência forte de música brasileira. Todo mundo já pirava em Jorge Ben, Sergio Mendes, o próprio Baden e outros malandros casca grossa. Daí o processo de produção das bases, que tá na mão dos caras, parte do encontro dessas referências. O resultado que a gente tem é uma sonoridade que é, no mínimo, particular. Todo mundo fala que é um som diferente, os gringos têm feito muito contato via internet, as músicas tocam em rádios e festas na Europa, no Japão. Acho que isso acontece porque, assim como nas letras, tem uma proposta nova no trabalho. Deposito toda a responsabilidade e mérito em meus grandes parceiros da BeatBass!  

Nunca temeu te compararem com o D2?
Essa pergunta é foda! Medo nunca tive, até porque sei que cada coisa é uma coisa, mas muita gente já comparou e continua comparando. Eu particularmente não curto o som do D2, ouvia quando ele tocava no Planet, que era a tal época de ouro do rap-core. Mas de todo mundo que saiu do Planet (B Negão, Black Alien, Bacalhau no Autoramas e o Rafael nos projetos doidos) ele é o único que eu não curto ouvir atualmente. Acho que as pessoas fazem essa relação Xavi/D2 porque nós dois fazemos rap com elementos da música brasileira. Mas acho que a semelhança pára por aí. As bases do D2 têm uma roupagem muito diferente das minhas, e as letras então, não preciso nem comentar. Não acredito nessa coisa de que existe um “rap verdadeiro”, ou melhor, que alguém seja dono do rap. Acho importante que haja liberdade pra neguinho fazer o que quiser e deixar os ouvidos da rapaziada escolher. O engraçado é que muita gente vem falar dessa suposta semelhança como um elogio, aí que eu me divirto! 

Você é vegetariano, já pensou em abordar isso em uma música?
Sou vegetariano há uns bons seis ou sete anos, tive a idéia de juntar um punhado de malandros vegetarianos do rap e fazer um tipo de coletânea temática. Cheguei a fazer contato com uma rapaziada e, inclusive, foi assim que conheci o Rodrigo Brandão (Mamelo Sound System) que acabou escrevendo o release do EP. Por conta de mil coisas o projeto ainda não foi pra frente, mas também não foi abandonado. Acho que, de forma geral, as idéias do vegetarianismo, de ser drug free, acabam atravessando as músicas que faço. Nada diretamente, até agora, mas aparece e a tendência é aparecer cada vez mais. 

Nos anos 80 e 90 praticamente só o rap de São Paulo “vingou”, hoje o Rio nos mostra De Leve e a rapaziada do Quinto Andar, MV Bill, B.Negão, Black Alien e D2. Como anda o cenário hip hop em geral no Rio?
Acho que o Rio vive um momento muito bom. Tem MCs pipocando toda hora, em cada esquina. Dos que você citou, com exceção do D2, eu aplaudo de pé! Além deles tem o Gutierrez, o Marechal, aqui na Baixada também tem uma frente bacana o Slow, P,10... Acho que o problema do Rio não está nos artistas/grupos de rap, mas na estrutura pra coisa toda acontecer. Não existem muitos espaços pra show, festas que abrem o palco pro pessoal cantar com o mínimo de estrutura e dignidade. Eu até toco bastante, mas arrisco dizer que 60% dos eventos onde boto a cara não são de rap. Outra parada que percebo aqui é a ascensão das batalhas de MCs, que acho bacana, mas o interesse do público está cada vez mais voltado pro “espetáculo” que é a batalha, e cada vez menos no trabalho autoral dos MCs. É uma faca de dois gumes, pois a batalha acaba atraindo um público que talvez nunca comparecesse a um evento de rap, mas tem esse outro lado que falei. 

Defina a importância destes itens pra você e/ou sua música:
Sergio Mendes: Grande referência, maestro de primeira! Uma das fontes que o time aqui mais gosta de beber.
BeatBass High Tech: Parceria e irmandade total! Afirmo sem o menor pudor que são os grandes responsáveis por tudo que vem acontecendo até então nessa minha curta carreira. Eu faço as letras, eles matutam os instrumentais e juntos vamo que vamo! Desbravando as fronteiras do tal do rap.
Jorge Ben: Jorge Ben é meu pastor e nada me faltará! O cara deu um nó na música brasileira, além disso a história de vida desse malandro é foda. Flamenguista e suburbano como eu. Admirador e propagador maior da raiz africana, que também temos em comum.
Internet: Ela tem proporcionado toda divulgação e propagação do nosso som. Além do meu site, do Myspace, Orkut e outras ferramentas, a mídia que a gente já teve também é quase toda via internet. É através dela que tenho feito várias pontes com pessoas de outros estados e países, o som tem tocado em várias partes do mundo e de vez em quando chega um e-mail do Japão perguntando onde comprar o disco em Tóquio, fico bolado!
Simonal: Na música “Pra Falar de Amor” eu canto “represento o disco do Simonal cravado na raiz do cajueiro que meu pai plantou, quando se declarou pra minha mãe e fundou na mistura de raças uma família pelo amor”. Essa história é real, meus pais namoravam ao som de Simonal. Até hoje tem os vinis aqui em casa.
Vegetarianismo: É uma parada que já está completamente vinculada à minha vida e ao meu cotidiano, não imagino de outra forma, e, como já disse, cedo ou tarde vai acabar invadindo a música cada vez mais.
La Santa Mafia: É um projeto que tenho com o Felipe e o Bezerra, baterista e roadie do Confronto. Nele, fazemos um rap mais, digamos, clássico. É um trabalho bem diferente do meu, mas que piro em fazer pois é um tipo de som que curto ouvir e faço com pessoas que admiro cada vez mais. Confiança, honra e lealdade. 

Valeu a entrevista João, espaço aberto para mensagem final!
2007 foi um ano crocante, várias paradas acontecendo. Muitos shows, contatos, alguns novos amigos e a certeza cada vez maior de que esse é o caminho que queremos seguir. Já estamos arquitetando novas bases e letras para um projeto ousado. Vamos bater de frente com nego grande porque chutar cachorro morto não é a nossa cara. 2008 vai ser sinistro! Queria também agradecer a moral e o espaço cedido no zine, esse tipo de iniciativa é fundamental pra que as coisas aconteçam. Agradecer ao amigo Mex, da Bloodline Design, que fez a capa do disco e tem dado um trato no nosso aparato visual. Rodrigo, do Mamelo, pela moral com o release e a todos que têm escutado e indicado o som aos amigos, essa é a nossa rádio, a rádio “escuta ai”. Vamo que vamo! 

Contatos:
www.joaoxavi.com
www.myspace.com/joaoxavi
xjoaox@gmail.com
www.myspace.com/beatbasshightech
www.myspace.com/lasantamafia 

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