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Epidemia de hardcore
por Ricardo Tibiu
tradução por Marina Melchers
Os norte-americanos do Outbreak estão de malas prontas para sua primeira turnê pela América do Sul. Ryan (voz), Seger (baixo), Chris (guitarra) e Nate (bateria) desembarcam em Quito (Equador) no dia sete de março, depois passam por Bogotá (Colômbia), Santiago (Chile) e Buenos Aires (Argentina). Para o Brasil eles reservaram três datas para mostrar seu hardcore/punk cru: dias 14, 15 e 16 de março – para detalhes acesse a agenda - respectivamente, em Piracicaba (SP), Belo Horizonte (MG) e São Paulo (SP), todos com os curitibanos do Your Fall como suporte. O Outbreak chega ao terceiro mundo para desencadear sua epidemia de hardcore que já esteve lado a lado com nomes como Agnostic Front, Madball, Comeback Kid e Only Crime (esta tem em sua formação lendas que passaram por Black Flag, ALL, Descendents, Good Riddance, Bane, Converge, entre outras). Conversamos com o frontman Ryan, que também proprietário do selo Think Fast!, antes dele e sua turma chegarem por aqui. Confiram!
Qual foi a coisa mais absurda que você ouviu falar de um país antes de tocar nele?
Você ouve todos os tipos de coisas sobre estados e países antes de viver as experiências você mesmo. Me disseram que americanos estão sendo massacrados a torto e a direito na fronteira mexicana, e temos um show em Tijuana em maio. Espero que não sejamos massacrados, há! Eu acho que na maior parte do tempo as coisas são distorcidas e perdem as proporções. Nós geralmente tocamos em qualquer lugar para então tirarmos nossas próprias conclusões, ao invés de nos basearmos no que algumas poucas pessoas estão nos dizendo. Ainda assim, às vezes coisas absurdas são comuns. O Kevin, do The Hope Conspiracy, me contou umas coisas muito horríveis sobre a Rússia, eu espero que nós nunca tenhamos esse tipo de experiência.
O que você conhece da música brasileira?
Para ser bem honesto, não é muito. Ocasionalmente, meu selo recebe pelo correio demos de bandas brasileiras. Estamos ansiosos para ver o que o Brasil tem para oferecer!
Como está o cenário hardcore nos EUA e a música americana em geral?
Não dá para generalizar o país inteiro, porque em alguns lugares é o máximo, e aí na cidade seguinte é uma bosta. É difícil de dizer. Hardcore e punk rock têm um ciclo tão rápido, num ano uma cidade é demais e no ano seguinte ninguém dá a mínima... nem sempre é assim, mas já vi isso acontecer muitas vezes. Há muitas bandas e muitos shows, então é fácil se perder na mistura. Não quero soar como um idiota entediado, mas rola uma coisa mais de quantidade que qualidade, o que é uma bosta. Mas acho que com a internet, o GarageBand e o MySpace, todo mundo do nada está em uma banda, há! Alguns lugares nos EUA que foram sempre bons com a gente são Boston, Seattle, Long Island, Saint Louis, Atlanta, Detroit e o sul da Califórnia. A música americana em geral? É uma piada. Quer dizer, tem algumas ótimas bandas mainstream, como o Foo Fighters, mas daí tem o lixo óbvio que as pessoas engolem. Como as pessoas podem gostar seriamente de ouvir bandas como Buckcherry é algo que está além da minha compreensão.
Como você definiria o som do Outbreak para uma pessoa que nunca o ouviu antes?
Hardcore punk rápido, louco, enérgico, cru, sem frescuras. Algo que você provavelmente não ouviria no rádio, há!
Quais são as principais influências da banda?
Eu diria que somos influenciados principalmente por várias bandas antigas que nos fizeram gostar de hardcore/punk. Negative Approach, Bad Brains, Minor Threat, Descendents, etc.
O quê nós podemos esperar dos shows do Outbreak por aqui?
Sem besteiras, sem encher lingüiça, só hardcore/punk cru e sem frescuras. Esperamos que as pessoas se divirtam e liberem um pouco da energia acumulada, sei que nós vamos fazer isso.
Como você vê a relação da internet com o mercado fonográfico, acha que ela ajuda ou atrapalha? Te pergunto isso porque aqui no Brasil a indústria passa por uma séria crise. As majors reclamam da pirataria e dos downloads gratuitos, mas recentemente o cenário independente também teve uma queda considerável nas vendas de CDs.
Como a maioria das coisas, tem seus pontos positivos e negativos. Eu poderia ficar aqui para sempre listando os prós e os contras. Por um lado, os downloads fazem com que seja mais fácil chegar na música. Sem os downloads, seria difícil encontrar bandas menores sem distribuição, enquanto a internet fez com que qualquer banda, de qualquer lugar, esteja na ponta de seus dedos. Nesse sentido, é o máximo. Quem não gostaria de ter sua música tão acessível? Por outro lado você tem os selos, que geralmente são aqueles que estão colocando o dinheiro nesses lançamentos... se ninguém comprar o disco da forma tradicional, o selo não vai conseguir mais apoiar a banda, e aí muitas vezes a banda acaba, porque eles não têm condições de gravar e promover um disco sem ajuda. Então é realmente uma faca de dois gumes. Você pode argumentar dizendo que não ia comprar o CD de um jeito ou de outro, então de certa forma você está conhecendo bandas que você não conheceria de outra forma (e isso estaria ajudando as bandas, porque se você realmente gostar da música você provavelmente vai ver eles ao vivo e vai comprar algo na banquinha de merchandise)... o que as pessoas não consideram é que selos raramente levam uma porcentagem das vendas de merchandise da banda ou dos shows. Então, se o selo está falido fica bem mais difícil para a banda sair em turnê, especialmente bandas menores. Alguns selos tentaram diminuir seus preços, mas não parece adiantar. Se as pessoas podem roubar algo e correr um risco muito pequeno de serem pegas, então elas vão roubar. Outro argumento que escuto é de que a pessoa vai fazer o download para “testar” o disco e ver se gosta, e se gostar, vai comprá-lo. Isso é besteira. Pra começar, não há como monitorar quem vai comprar e quem não vai. E depois, 99% das bandas e selos oferecem uma amostra grátis, seja um MP3 ou o disco inteiro em streaming. Eu consigo ver as pessoas dizendo que as gravadoras estão enriquecendo e abusando dos consumidores com os altos preços de discos, mas o que acontece é que a maioria dos selos independentes está lutando para sobreviver... a maioria das majors também pra falar a verdade. Para as majors é bem mais fácil, mas para os independentes, onde cada dólar conta, é bem mais difícil.
Se você estivesse cara a cara com Osama Bin Laden, o que diria a ele?
“Espero que você seja estuprado na prisão.”. Qualquer pessoa que tira vidas casualmente não merece viver.
E com George Bush?
Não tenho conhecimento político suficiente, mas eu não vou no “foda-se o bush” só porque é a coisa punk a se fazer. Talvez ele tenha mesmo estragado as coisas, e se foi assim, eu obviamente não apóio isso, mas eu não presto atenção suficiente em política para fazer uma crítica com embasamento à Bush. Eu consigo apontar exemplos específicos, como a demora na ajuda e resgate das vítimas do Katrina, mas na verdade eu não faço idéia se podemos culpar uma única pessoa por aquilo… então aquele episódio do South Park basicamente resume tudo pra mim (risos). Nós simplesmente queremos ter alguém em quem pôr a culpa, George Bush, FEMA, etc. Ou quem sabe foram as Pessoas Caranguejo? Algumas coisas que eu acho que temos por aqui que são uma merda são nosso sistema de saúde, os impostos e preços de combustível, mas então eu simplesmente penso, “bem, pelo menos eu não estou vivendo num país de terceiro mundo”. Você pode me chamar de ignorante, mas no fim do dia só estou tentando pagar minhas contas, sem enfiar meu nariz em batalhas políticas sobre as quais eu não sei nada, e muitas vezes nem quero saber.
Se os membros do Outbreak fossem personagens do Simpsons, quem vocês seriam?
Ok, essa é definitivamente a melhor coisa que já me perguntaram. Seger e eu somos super fãs dos Simpsons. Quando eu era bem pequeno, eu idolatrava o Bart. Ele era meu herói. Ele andava de skate, falava “palavras feias”, etc. Eu me compararia com o Bart (risos).
E para finalizar, na bandeira do Brasil está escrito “Ordem e progresso”, que obviamente não é o que temos por aqui. Se você pudesse colocar uma frase na bandeira americana, o que seria?
Ah cara, essa é outra daquelas perguntas onde eu sinto que eu devia ter alguma resposta forte e influente. E o fato é que eu não tenho. Tem todo tipo de coisa que eu odeio aqui, mas quando olho em volta, as coisas poderiam ser muito piores. Existem líderes políticos muito piores, e países com mais corrupção, então será que eu devia mesmo reclamar? Eu não voto, então eu tenho direito de reclamar? Meu voto de merda vai contar? É por isso que eu sou otimista demais para me envolver com a política.
Links relacionados:
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